Se algumas pessoas tivessem visto o céu de Bauru hoje, jamais desejariam sair da cidade ou apagá-la da memória. A lua imensa entrecortada pelas faixas laranjas no fim desta tarde bauruense estava incrível. Junto comigo as mais variadas pessoas se aglomeravam na procura por um pedaço de calçada para iniciarem a caminhada do dia. Desta vez, diferentemenmete de tantas outras, preferi não entrar em contato com o ambiente à minha volta. Pela primeira vez experimentei usar meu celular para ouvir música e voltei-me aos meus próprios pensamentos. Enquanto caminhava, a cidadese refez diante de meus olhos. Divagando ao som de músicas espanholas os caminhantes tornaram-se personagem de meu próprio filme, o qual rodava incessantemente em minha cabeça. Imaginei como seria engraçado se de repente as pessoas começassem a dançar umas com as outras, chacoalhando os braços para lá e para cá como se segurassem castanholas. Ri por uns minutos quando me lembrei o quão esquisita podia parecer aos outros a cena. E logo lembrei-me dos protocolos sociais que certa amiga sempre me falara. Como podem as pessoas ficarem tão assutadas quando rompemos o limitezinho mais tolo das ações oficializadas.
Ando lendo tanto sobre crise. É crise da pós-modernidade, das universidade, dos intelectuais, financeira, da área de marketing, passando pela educação, até alcançar as biológicas. É crise que não acaba mais. Logo, logo entro numa também. De repente o telefone toca e a pessoa para quem doei meu sofá gasto e surrado, dos tempos de república, me diz que a entrega foi feita direitinho e ainda aproveita para dizer que o seu velho dará para outra pessoa, pois o novo (aquele meu velho e surrado) é bem mais macio. Macio? Porra, o sofá é duro que nem pedra desde que eu o comprei numa liquida nas Casas Bahia. Volto a pensar na crise e o quanto essa lamentação tem me enchido o saco. Com certeza o mundo anda meio em frangalhos, de ponta cabeça, com as prioridades invertidas. Classifico assim para não entrar na esteira de clichês disponíveis para analisar a situação. Ok? O que fazer então? Prestar sociais, montar uma ONG, atuar no sindicalismo, concurso público, entrar para a vida acadêmica? A questão, companheiro, é que não dá pra viver à margem disso tudo, afinal quem banca as contas no final do mês? Também não dá pra assumir uma postura blasé, aliás o sujeito blasé é o que há de pior. O cara não se estimula com nada, não tem tesão pra nada, só sabe ser indiferente. Como viver sem apertar o gatilho ou tornar-se monocórdico?
Definitivamente, não tenho as respostas. No entanto, arrisco que a saída nada tem a ver com ambientes culturais undergrounds, espaços culturais ou alternativos, com a pluralidade ou diversidade das metrópoles, com os filmes na contramão, músicas ou estilos lado B, X ou Y. Tampouco tem a ver com a roupa da vez, silicone, botox, maquiagem, carro do ano, casa com piscina, condomínio fechado ou qualquer outro desejo enlatado pronto a ser consumido.
Se existir uma saída para essa apatia geral e bundamolice que toma conta de nossos tempos ela está em assumir o amor. E não é aquela coisinha bonitinha, nhém nhém nhém, de sessão da tarde. É amor pelo mundo e pela vida, sem pretensões e ilusões. A capacidade de ser intenso, curioso, de sensibilizar-se. De resto o que nos sobra além do oco e podre atestado de que estamos imersos, muitas vezes, no caldo da superficilialidade cotidiana. Prender-se em tais preocupações pode ser beco sem saída, isso não significa ignorar nossas aflições. Acho que isso é suficiente para responder a pergunta que me fizeram dia desses sobre preferir Bauru a São Paulo. Não é um local, um espaço que me faz sentir viva.
Dia desses, peguei o finalzinho de um dos programas do Abujamra cuja entrevista era com um diretor da TV pública de Angola. Abujamra pediu ao angolano para dar um recado sobre qualquer assunto para quem o assistia naquele momento. Depois de pausar por uns minutos, inesperadamente o angolano soltou a seguinte frase: Deixem-nos viver! Por detrás de todas as crises há pessoas e, aquilo que mais me interessa atualmente, quem são essas pessoas a que fazemos referência?
Talvez, continuamos escrevendo, continuamos estudando, continuamos ensinando, no fim das contas, não porque esperamos curar o mundo de seus males – sejam eles quais forem. Continuamos fazendo tudo isso na esperança de um dia conseguir curar essa doença da pequenez que acomete o tempo todo as nossas próprias almas (grifo meu no fim do belo post de Erick Felinto).
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
A apatia do cotidiano
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
O PIG de Paulo Henrique Amorim e a identidade nos blogs

Acabei de ler um post bacana do Pedro Doria sobre o blog da Petrobrás. Sei que o tema já saiu de moda, mas me chamou atenção a ligação entre imprensa e partido político. Não pude deixar de pensar no PIG - Partido da Imprensa Golpista - de Paulo Henrique Amorim e no fato de eu estar obtendo informação no blog de dois jornalistas. Se podemos apontar alguma novidade na atividade jornalística é a proliferação de blogs assinados por jornalistas, que nos colocam diante do debate sobre a produção de notícia, censura, liberdade de expressão, credibilidade e relação com as fontes. É interessante observar os diálogos cruzados pelos blogueiros-jornalistas, bem como determinados alinhamentos ou embates no contexto virtual. Lembrando que este (jamais!) está dissociado da realidade concreta.
Circulando pelos blogs acima mencionados e por outros, como os de Reinaldo Azevedo e Inácio Araújo, podemos perceber como o jornalista se constrói no blog e como a definição de blog estravaza o conceito de meio de comunicação para se constituir, também, em espaço (local). Enquanto meio de comunicação, o blog permite a aproximação do jornalista com sua audiência, ou público-leitor, garantindo uma interação passível de ser mensurada pelo analytics e pelos comentário via post ou e-mail. Nesse sentido, o blog pode ser considerado como uma espécie de evento midiático conduzido pela figura do jornalista-blogueiro, o qual, a partir de suas competências e habilidades, manterá uma fiel platéia ou não. Temos como questão central a visibilidade da figura do jornalista e, antes de entrar nessa questão propriamente, me coloco a refletir sobre o blog enquanto espaço, isto é, um local que existe conquanto haja alguém que o ocupe. Desta forma, o blog constitui-se, também, como um ponto de encontro entre blogueiro e leitores, por isso a referência ao mesmo enquanto casa ou o convite para uma visita ao blog. No entanto, o que de mais interessante se apresenta na prática do blogging é a construção do blogueiro, afinal um blog, seja ele jornalístico ou não, carrega sempre a assinatura do eu. Desde a escolha da foto que se quer mostrar, passando pelo layout, categorias e nomenclaturas, até a escolha do nome do blog, temos a corporificação do blogueiro. Assim, por mais objetivo ou jornalístico que possa querer ser, o blog é sempre marcado pela identidade de seu autor. A interação com os leitores é que permite a construção da identidade do blog e, consequentemente, do próprio blogueiro, por isso arrisco dizer que para entender o contexto dos blogs, ao invés de recorrer a categorias prontas como cibercultura e pós-modernidade, devemos observar seu interior. É na relação entre blogger e blogueiros, ou se preferirmos, no cotidiano dos blogs que, talvez, consigamos captar como se constituem espaços para a sociabilidade, construção de identidades e narrativas, desenhando formas de comunicação e vinculação possibilitadas (e não determinadas) pela mediação técnica.
Há quem fale de uma espécie de perfomance narrativa para definir a atuação do blogueiro perante sua audiência e, pensando no blog de Reinaldo de Azevedo, o conceito fica particularmente interessante, pois o limite entre jornalista e personagem no contexto de seu blog é bem tênue.
Postado por Xenya Bucchioni às 11:19 0 comentários
Marcadores: blog, blogger, blogging, identidade, jornalismo, jornalista
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Versus e a aventura latino-americana
Data de 1975 o nascimento do jornal alternativo Versus, imerso na proposta de publicar aventuras, idéias, reportagens e principalmente cultura, assumindo neste último pilar um forte caráter de resistência. Nas páginas de Versus encontra-se um discurso épico das tramas latino-americanas, com seus heróis e sua realidade fantástica, que no jornal ganhava matizes metafóricos para expressar o horror das ditaduras instauradas na América Latina da década de 1970. Neste artigo, pretendemos resgatar a memória de Versus, discutindo ainda a atuação do jornal na composição das identidades latino-americanas.
Replicando o post da Ju, o artigo pode ser lido na Revista Contracampo, da Universidade Federal Fluminense, e em breve na Revista Diálogos de la comunicación, da Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social. Lembrando que o artigo é assinado por mim e pela Juliana Sayuri.
Postado por Xenya Bucchioni às 11:56 0 comentários
Marcadores: america latina, ditadura militar brasileira, imprensa alternativa, política, versus
Dicas de conteúdo
Depois de longas férias esse blog volta com força total (assim espero) para fechar o semestre e comemorar o novo ano que se aproxima. Estava eu em processo enlouquecedor de fechamento do relatório para a qualificação do mestrado e participando de vários congresso ao mesmo tempo e outros projetos..um sem fim de atividades que não me deixavam pensar em nada. Chegava em casa querendo comer e dormir e pronto!
Trouxe uma diquinha boa de conteúdo voltada para a área de comunicação. O Nós da Comunicação
é formado por professores, pesquisadores, profissionais da área e um sem fim de pessoas amantes da comunicação. Tem sempre informações, textos e vídeos bacanas..vale a pena conferir. Inclusive esse mês tem uma entrevista com o Manuel Castells sobre o lançamento de seu novo livro, Comunicación y poder. Vale a pena conferir!
Postado por Xenya Bucchioni às 11:35 0 comentários
Marcadores: campanha internet, comunicação, conteúdo, dica, informação
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
De repente fez sentido
Depois de ouvir as aventuras de uma brasileira numa experiência de Au Pair nos EUA, Mano Chao fez mais sentido do que nunca.
Abaixo do clip no youtube estava esse post:
elpiu (1 mês atrás)
SOY UN CLANDESTINO EN MI PROPIA AMERICA LATINA..... ¿HASTA CUANDO TANTA BUROCRACIA?
VALE MAS UN PAPEL QUE UNA FILOSOFIA DE VIDA
ME DOY CUENTA QUE LA BUROCRACIA SE TENDRIA QUE LLAMAR CORRUPCRACIA
SI SEGUN DIOS NOS DIO LA VIDA....
LOS HOMBRES TRATAN DE COBRARTELA...
¿CUANDO TENDREMOS IGUALDAD SIN GENERO, RAZA, CONDICION SOCIAL O ECONOMICA?
no quiero nacionalizacion... quiero LIBERTAD
Postado por Xenya Bucchioni às 09:19 0 comentários
Marcadores: clandestino, identidade, imigração, liberdade de expressão, mano chao
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
O que te faz ser quem você é?

O que te faz índio? Algumas penas na cabeça, pinturas pelo corpo e uma pele "amorenada"? Ser índio, ser estanque. Para muitos, alguém lá no meio da selva, caçando e pescando, sempre desfrutando de todos os prazeres que a natureza pode nos dar. O que faz dele índio? A vivência distante de meus olhos, de meu mundo? A demarcação de um território que a civilização cristã, branca e ocidental lhe oferece? Aos índios a natureza selvagem, a identidade genuína a partir da negação de sua participação na modernidade (ou será pós-modernidade?). A identidade fossilizada, como algo externo a nós, com regras e sistemas de organização próprios. Como se a atividade humana não participasse dos processos de formação da identidade. A quem interessa um índio imutável? Como se as formas de sociedade não fossem a substância da cultura?
Atualizar a cultura. O homem se reiventa o tempo inteiro, posto que isto é forma elementar de sobrevivência. A quem interessa esse ideal de "autenticidade" estático?
Macuína corria atrás de sua Muiraquitã, símbolo de sua gente, história e tradição. Pois bem, corria atrás de sua subjetividade petrificada na forma de um objeto. A "autenticidade" presente no inanimado. Mas não seriam identidade, cultura e tradição elemento vivos?
Por que é tão difícil assumir que somos tão variados em nossa essência como em nossas formas de expressão?Outra pergunta possível: quando perceberemos que é a práxis humana, em seu sentido criador, que produz o mundo das coisas e ideias?
P.S: O que te faz ser quem você é? (na língua errada do povo/Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil).
Inspirações: Geertz, C. A interpretação das culturas.
Paiva, R., Barbalho, A (orgs.). Comunicação e cultura das minorias.
Rede Índios On Line.
Postado por Xenya Bucchioni às 14:28 1 comentários
Marcadores: cultura, identidade, modernidade, muiraquitã, práxis humana, pós-modernidade, tradição, índio
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
A construção social do imaginário tecnológico
Na semana passada deis duas palestras sobre cibercultura na Unesp. A primeira, mais teórica e conceitual, foi para a turma de Rádio e Tv e a segunda, mais prática, para o pessoal do Jornalismo. O interessante nos dois dias de palestras foi perceber a polêmica que gira em torno do assunto, sobretudo em relação a célebre questão: "o que virá com tanta tecnologia disponível?".
A presença de tecnologias digitais em nosso cotidiano é tamanha que nada mais natural do que determinados medos associados à dependência dos seres-humanos a tais artefatos. No entanto, as tecnologias não são criadas pelos próprios seres-humanos? Por acaso não somos nós que as introduzimos em nosso cotidiano e lhes atribuimos significados e usos? Há uma certa ideia de que as tecnologias em geral são como entidades preexistentes à existencia humana, isto é, dotadas de poderes próprios e causalidades maléficas ou benéficas (a depender de quem discursa). Num pequeno livrinho intitulado "Pós-modernidade" há um artigo chamado "O fututo do passado" que trata da produção sci-fi, desde a década de 50, passando pelos anos 60, até chegar às produções da década de 80. Nesse brilhante artigo os autores mostram como essas produções cinematográficas estão ligadas às noções de pós-modernidade e, mais do que isso, a uma certa ideia de desenvolvimento tecnológico muito presente nos atuais discursos sobre cibercultura. O mundo virtual como algo irreal, fantasia e escape, termos pejorativos, a meu ver, para tratar o assunto tem correspondência nessas produções. Mas será que o virtual não dialoga com o real?
Se atentarmos para o contexto histórico veremos, também, a importância das polarizações ideológicas (capitalismo X socialismo) para a construção de todo um imaginário tecnológico muito ligado ao fortalecimento do capitalismo, sobretudo com a queda do muro de Berlim, em 1989. Ou seja, pensar a cibercultura requer que adentremos em outros territórios que não só o simples funcionamento dos artefatos digitais e suas possibilidade de interação. Isso não significa, contudo, que o desenvolvimento tecnológico é ruim. Não existe tecnologia boa ou má, tudo depende de como as utilizamos.
Se hoje uma criança gasta horas no computador, tal fato não se deve somente a presença do computador no ambiente da casa. Há de se avaliar conjunturas históricas, as noções de família, a precarização da rua, dos espaços públicos, etc. A resolução para o "problema" não seria, pois, quebrar o computador. A problemátrica gira em torno da seguinte questão: " Que projeto de sociedade queremos construir?". Respostas que vem carregada de outras perguntas: "Quem fala de cibercultura, de onde fala e para que fala?"....
P.S: O título é inspirado no livro de Peter Berger, A construção social da realidade. O social é só para lembrar a dimensão humana da questão.
Postado por Xenya Bucchioni às 11:25 1 comentários
Marcadores: cibercultura, palestra, projeto social, pós-mdernidade, tecnologia, tecnologia e sociedade
